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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A História de Tuwillysson



      "Vai chamar Tuwillysson", decretara a mãe, depois do tal sonho sem pé nem cabeça que tivera na véspera do parto. Quarenta anos mais tarde, lá estava ele, sem muitas histórias para contar. Ao voltar a pé do trabalho naquele fim de tarde abafado, alguns metros antes da casa onde morava, uma mulher o chamou: 
        — Tuwillysson!
      Ouvir seu nome pronunciado sem qualquer hesitação era algo improvável. Além da família, e da namoradinha que o abandonara no segundo ano do colégio, ninguém mais acertava o dito cujo. E, agora, aquela voz feminina acabara de dizê-lo com uma naturalidade desconcertante. Teria ela voltado? Como o encontrara? Bastaria virar-se para descobrir. Ao invés disso, seguiu pela calçada fingindo não ser quem era. Os passos, bem atrás de si, traziam uma inesperada sensação de estar acompanhado. Logo ele, que não sabia mais o que era proximidade. Durante anos, colocara toda culpa de uma existência vazia na esquisitice do seu nome. Se ao menos não houvesse tanta beleza naquela voz de mulher ao dizer "Tuwillysson" teria sido mais fácil esconder-se da verdade: nada soava mais estranho do que seu ressentimento. Abriu o portão sem olhar para trás.
(*) IMAGEM: Google

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Quatro Minimalistas Perdidos em Algum Lugar da Gramática



Sujeitinho Oculto

Escondia-se atrás dos verbos.



Voz Passiva

Completamente dominada não tinha vez naquela família.



Bons Tempos

Suas doces memórias de infância brincavam no parquinho de um pretérito mais que perfeito.



Sujeito Composto em Maus Lençóis

Para aquele homem, depois de algum tempo na cama, a mulher e o criado mudo não faziam muita diferença.

(*) Imagem: Google

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Oficina da Palavra




― Hei! Dá pra atender ou tá difícil?
— Diga lá, moça.
― Vim pegar minha palavra colo. Estava com um defeitinho. Lembra?
— Hum... Colo, colo. Tantas pessoas pediram colo esta semana. 
― Imagino. 
— Conhece nossa nova promoção? Quem blindar a palavra esperança, ganha um novo amortecedor pra palavra macia ou pode mudar as pastilhas da palavra ácida.
― Só vou encomendar outro serviço quando vocês resolverem o probleminha no encosto da minha palavra colo.
— Ih, moça! Seu pedido ainda não ficou pronto.
― Não acredito que vou ter de esperar mais.
— Ah, mas neste caso, a moça ganha polimento na palavra paciência.
― Paciência? Há anos não uso essa palavra.
— Vai ver que é por isso que precisa tanto da palavra colo.


(*) Imagem: Google