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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A Doce Vida




Para voltar a Roma, nada de moedas na Fontana di Trevi. Preferia outro caminho. Ao encontrar um belo romano, suspirava e dizia: "Ave, César"! 


(*) Imagem: Marcello Mastroianni e Anita Ekberg em "La Dolce Vita" de Federico Fellini

Homem a Beira de um Ataque de Nervos





— Tive pesadelos outra vez. O que isto significa Dra. Sigmunda Fuad?
— Não tenho a menor ideia. Elabore, meu caro, elabore... 
— Sonhei que estava num lugar chamado "Tripa de Elite". Não é ato falho. Eu disse "tripa" mesmo.
—  Sua paixão pela gastronomia e cinema nacional é mesmo assombrosa. Consegue descrever o lugar? 
— É um restaurante gótico onde os garçons pintam as unhas com esmalte preto e oferecem um cardápio macabro. Todas as carnes servidas estão banhadas em sangue.
— Hum... Elementar meu caro Washington. Seu sonho está relacionado ao medo da morte.
— Medo? Como se eu fosse normal. Meu pesadelo parece um filme de terror. 
— Acalme-se. Até agora está mais pra filme B. O que acontece depois?
— Mando chamar o cozinheiro que diz ser vegetariano. Por isso batizou de "morte vermelha" a carne que sangra no prato.
— Além de vegetariano, este chef tem humor negro. Coerente para um "restaurante gótico".
— Não consigo mais comer carne, Dra. Sigmunda. Traumatizei. Veja. Estou tremendo. O que eu faço?
— Análise, meu caro. Muita análise. 

(*) Imagem: Google

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O Impaciente Inglês



Um trovão rompe o silêncio e desperta lembranças:
― Sonhei outra vez com sombras. O que isso quer dizer, doutora Sigmunda?
― Elabore o sonho, meu caro. Não sou vidente, apenas psicanalista.
― Desde menino tenho esse pesadelo. Estou num quarto escuro, um temporal desgraçado lá fora e a porta bate. Quando um relâmpago ilumina o céu, vejo sombras na janela. E grito. Grito muito.
― Lembra o que diz nestes gritos?
― "Ah"! E depois, "Oh"!
― O que sente ao ver as sombras?
― Pânico. Acho que é trauma de...  Ouviu isso? Escutei passos na sala de espera, mas sou o último paciente de hoje. Estamos só os dois aqui.
― Acalme-se. Voltemos às sombras. Lembra de algo ao pensar nelas?
― Oh my Freud! Digo, doutora Sigmunda Fuad. Ouvi outro barulho. Estou alucinando? Enlouqueci de vez? Qual o sentido?
― Elementar, meu caro Washington. Você está num ponto crítico da análise. As defesas frágeis. Por isso, projeta sombras no mundo exterior. Fantasias que não existem a não ser em seu imaginário...
O som de outro trovão assusta o paciente. As luzes do consultório se apagam. A porta é arrombada. Surge o vulto de um homem encapuzado, e sua voz vibra sombria:
― É um assalto.
Aos berros, Washington pula do divã, e pendura-se no pescoço do ladrão:
― Obrigado. Você me salvou. Não estou louco...


(*) Imagem: Google

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Discreto Charme da Loucura




Nada abalava sua discrição. Nem mesmo os surtos. Há dois anos ele acreditava ser um rei deposto que vivia no exílio. E sem nenhuma glória.


(*) Imagem: Google

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O Amor Sustentável




Era tão devota daquele homem que, ao tropeçar na sua presença, ao invés de perder o chão e cair, levitava.

(*) Imagem: Google

segunda-feira, 30 de julho de 2012

O Outro Lado Da Noite




Se pudesse escolher, provavelmente não veria a menor graça naquela mulher. Mas Letícia era intensa como uma festa: uma alegoria das suas melhores lembranças. Com ela recordava o menino que deixara escapar da alma. 

No momento em que o telefone tocou, às duas horas da madrugada, não conseguiu conter o sorriso. Do outro lado da linha, a voz dela:

— Quero conversar.

— Tenho alguma opção além desta?

Ela riu antes de admitir: 

— Você sabe a resposta.

— Só não digo até quando. 

— Eu sempre estou por um triz contigo. E sem rede de segurança. 

— Isto é um pedido?

— Nunca peço nada.

Era verdade. Letícia não pedia. Exigente e fora de controle como uma criança insuportável que acredita ser o umbigo do mundo. E nada poderia atraí-lo mais. Por isso a mantinha a uma distância segura: um milímetro da beira do abismo.

— Faça isso agora. Peça uma coisa cara.

— Diamantes. 

— Desconheço o termo.

— Deve ser porque sou a única coisa brilhante em sua vida.

— Minha luz.

— Acende o abajur. 

E os dois sorriram, ao mesmo tempo, como quem coloca entre parênteses tantas noites solitárias.


(*) Imagem: Google

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Um Homem Sedutor




O mundo de Romero ­­― mais conhecido por Don Romerito ­­― poderia ser o paraíso da sedução. Diante da intensidade daquele olhar, as mulheres rendiam-se fascinadas. Tudo fluía num clima perfeito. Satisfação garantida desde que elas não esperassem nada além dos tórridos momentos de prazer. Por uma estranha coincidência (ou seria abençoada?), suas conquistas amorosas, após alguns encontros, conheciam outros homens, casavam e viviam felizes. As boas línguas diziam que Don Romerito ­­― o amante avesso a compromissos ­­― era devoto de um santo casamenteiro. 

(*) Imagem: Google

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A Pergunta



― Tenho tanto medo da morte.

― E eu tenho medo da vida.

― Quem de nós morreu primeiro?



(*) Imagem: Google

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O Desejo







― Quantas vezes terei que repetir? Sua cota de três desejos esgotou.

― Eu sei. Só queria um pouco de companhia sem interesse.

(*) Imagem: Google



terça-feira, 3 de julho de 2012

Segredos de uma Menina


Aos cinco anos foi morar do outro lado do mundo. Um ursinho de pelúcia era seu único confidente.

(*) Imagem: Google

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O Sonho Não Acabou


Parada na porta do seu quarto, ali estava ela. Angelina Jolie. Por um momento, Ernesto Olívio sorriu como se estivesse consciente de que era apenas um sonho. No entanto aquela mulher deslumbrante continuava ao alcance de suas mãos, perfeita, numa pose sensual. Impossível resistir. 

Antes, porém, só por garantia — afinal, além de neurótico, nunca  deixou de ser precavido —, correu para o banheiro. Queria se certificar de que era ele mesmo do outro lado do espelho, e não o Brad Pitt. Neste exato instante, ouviu o som do despertador. Num ato reflexo de ódio jogou o relógio, que, por um triz, não acerta a cabeça de sua esposa. De volta ao banheiro, ao lavar o rosto, o terrível susto: Brad Pitt ria da sua cara, no espelho.

(*) Imagem: Google

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Vida Dupla


Quem a viu – sempre amorosa com o marido – não a reconheceria como autora daquela carta trancada a sete chaves no fundo de uma gaveta. 

(*) Imagem: Google

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Amor à Primeira Vista


Naquela manhã percorreram a mesma calçada em sentidos opostos. Ele chegou tão perto e sorriu ao se dar conta que entrava em sua vida...

(*) Imagem: Google

sexta-feira, 8 de junho de 2012

As Belas Adormecidas

Queria seduzi-lo naquela tarde. Sentada na varanda, imitou a pose de sua atriz predileta. Ele estava tão atrasado que as pernas da mulher adormeceram.

(*) Imagem: Google

sábado, 2 de junho de 2012

Paixão Secreta


O marido interrompeu a leitura do jornal e sorriu para ela que, distante, nem notou, fixada na lembrança de outro sorriso.
(*) Imagem: Google