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terça-feira, 30 de outubro de 2012

Estranhos na Noite



Caminhei pela rua deserta, em mais uma noite abafada. Ele me esperava na esquina. Não sentia medo, mas uma excitação marcava minha pele num longo arrepio. Pensar no perigo tornava a respiração curta.  A verdade é que fui invadida por uma alegria inesperada e fora de lugar: minha sensação de vazio havia sido diluída por um estranho. Até aquele exato instante — além do anúncio no jornal e o brevíssimo contato por telefone — não sabia quem era o homem que me aguardava ali.  Ele estava encostado no muro de uma casa abandonada. Quando me aproximei, esmagou a ponta do cigarro no chão. Logo em seguida, acendeu outro. A fumaça saía de sua boca em golfadas rápidas. E então ele disse:

— Você não serve. Não tem medo nos olhos. Não me interessa.

Seu sadismo era um tiro certeiro na única fantasia que ainda restava. Sentei-me na calçada sem vontade de chorar. E o mundo, outra vez, parecia oco.



(*) ESTE CONTO É RESULTADO DE UM EXERCÍCIO PROPOSTO EM OFICINA LITERÁRIA




(*) IMAGEM: Google

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O Último Desejo



Deixarei para Astolfo Henrique meu uniforme de escoteiro. Para a querida Hemengarda Gladys, o broche de veludo violeta, lembrança das Bodas de Ametista de meus avós paternos. Epaminondas ficará com meu animal de estimação, o crocodilo Xantipe. A adorável quituteira da família, Josephine Joanette, receberá a panela de barro onde foi preparada minha primeira papinha. E à caçulinha Genoveva Jamille, deixarei a maçaneta de porcelana do quarto de mamãe. Todos os outros bens, joias, objetos de arte e valores monetários serão destinados ao governo para patrocinar a Guerra do Paraguai.

(*) Imagem: Google