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terça-feira, 25 de setembro de 2012

domingo, 1 de julho de 2012

Jornal Emocional - Final




NOTA: Essa é a segunda e última parte do conto "Jornal Emocional". A primeira parte está na publicação anterior.



Ele escreve o primeiro nome no lugar da assinatura, e lê mais uma vez...

Discutir relação não é o meu forte. Você bem sabe: foram precisos quatro meses para digerir sua carta aberta com nosso amor no jornal. Tenho direito (ou seria dever?) à resposta, mas a verdade é que apesar de não ser certo presidente, não sei nada quando o assunto somos nós. Haja nós! Confesso minhas defesas mornas e bizarras. Fiz do caminho uma planilha onde aparecem as tais prioridades pra tocar a vida, minha cara, meu amor, minha amiga. É o que procuro fazer entre a ginástica e os mil compromissos de quem trabalha em televisão. Você casou sabendo que não haveria fim de semana garantido. Nem dia santo.

Entretanto está coberta de razão: casamento complicado... E estamos, neste barco, conscientes de que amor não é passaporte. Remamos para lados opostos e não vamos mais a lugar algum. A paisagem não muda, nem nossos problemas tão antigos, sempre iguais. Essa mesmice poderia ser reconfortante como uma agenda segura que, enfim, indica a hora de voltar pra casa. Olho o relógio. Há anos não chego cedo. Tanto tempo que não temos tempo. E-mails não compensam minha ausência, mas mesmo assim, escrevo pra desejar bom dia, mando um beijo e envio a mensagem. E ainda que soe piegas, não estou pronto pra dizer adeus, enquanto você não parece disposta a esperar. 

E agora? O que faço deste bilhete rabiscado com palavras perdidas? Poderia jurar ter escutado tua voz rouca: 

― Envie para o jornal.

(*) Imagem: Google

Jornal Emocional – Parte 1






Abriu o jornal e leu – apenas para conferir – se publicaram sem cortes...

Não estamos bem. Você sabe. Eu sei. Entretanto, a vida precisa seguir. Não adianta mais fazer de conta que tudo pode ser jogado pra debaixo do tapete. Tantos anos fariam nosso lindo persa – comprado à prestação – colar-se ao teto. Resolvi escrever (nem é muito, mesmo após uma década contigo) e publicar no jornal que assinamos. Por que o jornal? Nossas agendas estão lotadas e não há mais tempo entre um compromisso e outro. Até nos finais de semana. Então, já que estamos tão ocupados, talvez você leia por aqui mesmo, pela manhã, numa pausa entre a bicicleta e a musculação. 

Você e eu somos um caso sério, mas temo não sermos crônicos. E então o amor – que não é passaporte nem garantia – se desgasta quando não respira pelos caminhos da atenção e também da liberdade. E este é apenas um dos nós em nós. Somos independentes demais e, ao mesmo tempo, carentes. Queremos tudo. Não conseguimos mais nos contentar com o que é possível. Nossas fantasias e expectativas nos levaram para o Olimpo e nesse lugar, mortais não têm vez. Nem voz! Você não é meu Zeus. E eu não sou sua Juno. Nem estamos na idade da inconsciência e paixões imaturas. Então, Eros e Psique? Isto também não rola. Talvez, por isso, tenhamos ainda alguma chance. Somos humanos. E aprendemos alguma coisa. Pouco. Eu sei. Você sabe. Depende apenas de nós. Desatemos os nós? Ou nós?


(*) Imagem: Google



sexta-feira, 11 de maio de 2012

Um Estranho Jantar


(*) Imagem: Google

O jantar foi um martírio. No momento em que um renomado psicanalista se acomodara frente a ela, Luísa mergulhou em aflição. Por que não um engenheiro? 
O psicanalista tentara iniciar a conversa, perguntando se Pedro seria seu irmão. Luísa olhou para o marido como quem observa um parente distante. Ele sorria desenvolto ao lado de uma morena extrovertida. Ela sentiu inveja das mulheres enciumadas, e das pessoas que simplesmente se divertiam ali, como se fosse muito importante ser o que eram. Diante do estranho silêncio da mulher, o psicanalista repetiu a pergunta. Luísa, que até aquele instante nunca expressara o vazio ao lado de Pedro, foi surpreendida por seu ato falho. Ao invés de falar que eram casados, ouviu-se, perplexa, responder: 

– Somos maridos.