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terça-feira, 30 de outubro de 2012

Estranhos na Noite



Caminhei pela rua deserta, em mais uma noite abafada. Ele me esperava na esquina. Não sentia medo, mas uma excitação marcava minha pele num longo arrepio. Pensar no perigo tornava a respiração curta.  A verdade é que fui invadida por uma alegria inesperada e fora de lugar: minha sensação de vazio havia sido diluída por um estranho. Até aquele exato instante — além do anúncio no jornal e o brevíssimo contato por telefone — não sabia quem era o homem que me aguardava ali.  Ele estava encostado no muro de uma casa abandonada. Quando me aproximei, esmagou a ponta do cigarro no chão. Logo em seguida, acendeu outro. A fumaça saía de sua boca em golfadas rápidas. E então ele disse:

— Você não serve. Não tem medo nos olhos. Não me interessa.

Seu sadismo era um tiro certeiro na única fantasia que ainda restava. Sentei-me na calçada sem vontade de chorar. E o mundo, outra vez, parecia oco.



(*) ESTE CONTO É RESULTADO DE UM EXERCÍCIO PROPOSTO EM OFICINA LITERÁRIA




(*) IMAGEM: Google

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A História de Tuwillysson



      "Vai chamar Tuwillysson", decretara a mãe, depois do tal sonho sem pé nem cabeça que tivera na véspera do parto. Quarenta anos mais tarde, lá estava ele, sem muitas histórias para contar. Ao voltar a pé do trabalho naquele fim de tarde abafado, alguns metros antes da casa onde morava, uma mulher o chamou: 
        — Tuwillysson!
      Ouvir seu nome pronunciado sem qualquer hesitação era algo improvável. Além da família, e da namoradinha que o abandonara no segundo ano do colégio, ninguém mais acertava o dito cujo. E, agora, aquela voz feminina acabara de dizê-lo com uma naturalidade desconcertante. Teria ela voltado? Como o encontrara? Bastaria virar-se para descobrir. Ao invés disso, seguiu pela calçada fingindo não ser quem era. Os passos, bem atrás de si, traziam uma inesperada sensação de estar acompanhado. Logo ele, que não sabia mais o que era proximidade. Durante anos, colocara toda culpa de uma existência vazia na esquisitice do seu nome. Se ao menos não houvesse tanta beleza naquela voz de mulher ao dizer "Tuwillysson" teria sido mais fácil esconder-se da verdade: nada soava mais estranho do que seu ressentimento. Abriu o portão sem olhar para trás.
(*) IMAGEM: Google

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O Amigo de Adolfo Valentino



Adolfo Valentino tinha um amigo que vivia mergulhado em problemas. No entanto, apesar de sempre procurá-lo, nenhum de seus conselhos era aceito. No final daquela tarde, exausto do trabalho diário, encontrou o insatisfeito de plantão, que — para variar — reclamava das adversidades insolúveis em sua vida. 

— Não aguento mais tantos dissabores. Preciso conhecer a paz. 

Diante daquela conversa sem saída, afinal nada do que dissesse faria sentido nem diferença, Adolfo Valentino — um homem prático por natureza —, após a vigésima repetição das palavras "conhecer a paz", concluiu:

— Atormentado desse jeito, nem na capital da Bolívia você irá conhecer "la paz". 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Ponto de Ebulição

(*) Imagem: Google



Estacionou o carro na garagem e, ao contrário do que seria usual, permaneceu ali, sentada ao volante, silenciosa. A roupa colada ao corpo tornava desconfortável o contato do tecido em sua pele. Fervia como água em ponto de ebulição, mas preferia dizer que o calor da cidade a deixava assim. Seus desejos emergiam na superfície da vontade e explodiam em nada. Evaporavam. Exausta e vazia entrou em casa.