terça-feira, 30 de outubro de 2012

Estranhos na Noite



Caminhei pela rua deserta, em mais uma noite abafada. Ele me esperava na esquina. Não sentia medo, mas uma excitação marcava minha pele num longo arrepio. Pensar no perigo tornava a respiração curta.  A verdade é que fui invadida por uma alegria inesperada e fora de lugar: minha sensação de vazio havia sido diluída por um estranho. Até aquele exato instante — além do anúncio no jornal e o brevíssimo contato por telefone — não sabia quem era o homem que me aguardava ali.  Ele estava encostado no muro de uma casa abandonada. Quando me aproximei, esmagou a ponta do cigarro no chão. Logo em seguida, acendeu outro. A fumaça saía de sua boca em golfadas rápidas. E então ele disse:

— Você não serve. Não tem medo nos olhos. Não me interessa.

Seu sadismo era um tiro certeiro na única fantasia que ainda restava. Sentei-me na calçada sem vontade de chorar. E o mundo, outra vez, parecia oco.



(*) ESTE CONTO É RESULTADO DE UM EXERCÍCIO PROPOSTO EM OFICINA LITERÁRIA




(*) IMAGEM: Google

6 comentários:

  1. Ser recusada até mesmo por um estuprador... é o fim do poço...

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  2. Expectativas... nem sempre andam junto à razão. Depois do sangue ferver, voltar a uma vida morna... Ótimo conto, envolvente. Abraços

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  3. uma cena cinematográfica!

    as fantasias são o germe da razão.

    gostei muito!


    um beijo.

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  4. cena forte essa eh? grande micro! beijos

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  5. "...única fantasia que ainda restava. (...)E o mundo, outra vez, parecia oco."
    Porradão Dolce, sarjeta absoluta. Um conto curto e rascante, giz riscando o quadro negro, ui! arrepiou. bjs

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