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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Conto Curto



Todo final de tarde o portão enferrujado rangia para lhe dar passagem. Banho rápido. Sopa no jantar.  Hora do noticiário. Ao lado da poltrona de tecido puído, uma pilha de cadernos. Páginas e mais páginas preenchidas pela mesmice de seus dias. Naquela noite, ao abrir o diário, um ligeiro tremor percorreu seus dedos. Deslizou a caneta sobre o papel, e escreveu apenas uma frase: "Hoje aconteceu algo diferente".

(*) Imagem: Google

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Bolo Espera Marido





Ao folhear os antigos cadernos de sua avó, encontrou a receita do bolo "Espera Marido".  Uma nota de rodapé, na página amarelada, trazia a marca do senso de humor da melhor confeiteira da família.  A observação a lápis recomendava: "se ele demorar muito a chegar, sirva embolorado".




(*) IMAGEM: Google

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

As Mulheres de José Agildo




José Agildo casou-se duas vezes. Ao lado da primeira mulher viveu quinze anos debaixo de vários tetos porque Teodora Alice sofria de compulsão habitacional: não parava mais do que um ano na mesma residência. Um dia, cansado de tantos caprichos, rompeu o casamento. Dois anos mais tarde,  encontrou Valentina Jamile, aquela que seria apelidada por alguns de "esposa virtual" e por outros, "mulher fantasma". A segunda esposa, executiva de uma grande empresa, passava a maior parte do tempo viajando a trabalho. Naquela tarde, em conversa com o melhor amigo, admitiu que a ausência de Valentina Jamile já não o incomodava tanto. Diante da sugestão de partir para o terceiro casamento, José Agildo não titubeou:
— Enlouqueceu Antenor Francisco? Não nasci pra colecionador de sogras.

(*) Imagem: Google

sábado, 18 de agosto de 2012

Os Idiotas




Ele avisou que chegaria em dez minutos. Ajeitei a maquiagem borrada nos olhos. Uma gota de perfume, e estava pronta para desempenhar o papel da amante insaciável. Apenas por precaução, retirei a chave do armário onde estava a valise cheia de dinheiro. A esposa dele era mesmo uma otária. Acreditou naquela história de gravidez (eu avisei ao Rick que era melhor não vacilar sem camisinha, mas nosso amor nunca teve regras). Para evitar o escândalo, a mulher pagou o que eu pedi. Candidata nas próximas eleições, engoliu bem quietinha a chantagem. Teria muito a perder, se abrisse a boca para falar do marido traidor, enquanto eu abria a minha para aquele idiota pela última vez. Nossas cenas  —  nas mãos do candidato concorrente   —   renderiam outra valise repleta de dólares. Acionei a microcâmera camuflada em cima do criado mudo. E fui atender a porta.


ESTE CONTO É RESULTADO DE UM EXERCÍCIO 
PROPOSTO EM OFICINA LITERÁRIA

(*) IMAGEM: Google

segunda-feira, 30 de julho de 2012

O Outro Lado Da Noite




Se pudesse escolher, provavelmente não veria a menor graça naquela mulher. Mas Letícia era intensa como uma festa: uma alegoria das suas melhores lembranças. Com ela recordava o menino que deixara escapar da alma. 

No momento em que o telefone tocou, às duas horas da madrugada, não conseguiu conter o sorriso. Do outro lado da linha, a voz dela:

— Quero conversar.

— Tenho alguma opção além desta?

Ela riu antes de admitir: 

— Você sabe a resposta.

— Só não digo até quando. 

— Eu sempre estou por um triz contigo. E sem rede de segurança. 

— Isto é um pedido?

— Nunca peço nada.

Era verdade. Letícia não pedia. Exigente e fora de controle como uma criança insuportável que acredita ser o umbigo do mundo. E nada poderia atraí-lo mais. Por isso a mantinha a uma distância segura: um milímetro da beira do abismo.

— Faça isso agora. Peça uma coisa cara.

— Diamantes. 

— Desconheço o termo.

— Deve ser porque sou a única coisa brilhante em sua vida.

— Minha luz.

— Acende o abajur. 

E os dois sorriram, ao mesmo tempo, como quem coloca entre parênteses tantas noites solitárias.


(*) Imagem: Google

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Eduarda e Mônaco



Eduarda ouvia Roberto Carlos o dia inteiro, enquanto Mônaco, angustiado por natureza, lia Sartre o tempo todo. O mundo de Eduarda era outro: sem espaço para crises existenciais. Sempre que Mônaco repetia "o inferno são os outros", ela declarava que o segredo do sucesso era mandar tudo para o inferno. Naquela tarde, antes de ingerir o décimo sal de frutas do dia, ao observar a coleção de pinguins de porcelana, em cima da geladeira vermelha, Mônaco reclamou baixinho:

― Só os cafonas são felizes...


(*) Imagem: Google

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Um Homem Sedutor




O mundo de Romero ­­― mais conhecido por Don Romerito ­­― poderia ser o paraíso da sedução. Diante da intensidade daquele olhar, as mulheres rendiam-se fascinadas. Tudo fluía num clima perfeito. Satisfação garantida desde que elas não esperassem nada além dos tórridos momentos de prazer. Por uma estranha coincidência (ou seria abençoada?), suas conquistas amorosas, após alguns encontros, conheciam outros homens, casavam e viviam felizes. As boas línguas diziam que Don Romerito ­­― o amante avesso a compromissos ­­― era devoto de um santo casamenteiro. 

(*) Imagem: Google

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O Amor é uma Loucura



Ele: — Eu te amo.
Ela: — Ninguém é perfeito.
Ele: — Me dê mais uma chance.
Ela: — Eu não te amo mais.
Ele: — Ninguém é perfeito.

(*) Imagem: Google

segunda-feira, 16 de julho de 2012

De Pernas Para o Ar




Esta é a história de Amanda Júlia. Arquiteta bem sucedida, dona de um corpo escultural, bonita e charmosa, sem mencionar o fantástico senso de humor. E não termina por aí. Para completar sua lista particular de desejos realizados, vive um tórrido romance com um homem incrível. Cenário quase perfeito. Sim. Quase. Afinal não poderia agradar gregos e troianos. Neste caso, principalmente certas troianas. Algumas amigas reclamavam de que ela sempre fora ausente. E, depois do novo amor, não queria mais saber de nada, nem de ninguém. Um dia, cansada das críticas (ou seria inveja?), Amanda Júlia pediu ao namorado que a fotografasse com as pernas para o ar. E enviou, para as amigas, a imagem com a legenda espirituosa: "Só assim as varizes me dão sossego".
(*) Imagem: Google

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Na Cama Com Um Milionário



No dia de seu nonagésimo oitavo aniversário, ao acordar da habitual soneca depois do almoço, o ancião milionário se deparou com os familiares em volta do leito, praticamente sentados sobre a cama. Pediu, então, que um dos parentes falidos se aproximasse ainda mais. E sussurrou em seu ouvido:


— A vida é uma criança. 

(*) Imagem: Google

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O Sonho Não Acabou


Parada na porta do seu quarto, ali estava ela. Angelina Jolie. Por um momento, Ernesto Olívio sorriu como se estivesse consciente de que era apenas um sonho. No entanto aquela mulher deslumbrante continuava ao alcance de suas mãos, perfeita, numa pose sensual. Impossível resistir. 

Antes, porém, só por garantia — afinal, além de neurótico, nunca  deixou de ser precavido —, correu para o banheiro. Queria se certificar de que era ele mesmo do outro lado do espelho, e não o Brad Pitt. Neste exato instante, ouviu o som do despertador. Num ato reflexo de ódio jogou o relógio, que, por um triz, não acerta a cabeça de sua esposa. De volta ao banheiro, ao lavar o rosto, o terrível susto: Brad Pitt ria da sua cara, no espelho.

(*) Imagem: Google

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Atrás das Borboletas




Lucrécia Bruna era uma jovem viúva, sem filhos. Um dia, cansada da solidão, colocou seu perfil num site de relacionamentos. Ouvira dizer que mulheres apaixonadas sentiam borboletas no estômago. Quem sabe seria melhor que sua velha gastrite?

(*) Imagem: Google

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Espelho, Espelho Meu

 


— Então eu sou isso...

— O que esperava?

— Achei que era bem melhor.

— Alguns se julgam ao contrário.

— Pode ser.

— Ficou triste?

— Um pouco.

— Vai passar.

— Como sabe?

— Confie em mim.

— O que é confiar?

— Um mergulho.



(*) Imagem: Google

Breve História de Pescador



No meio da madrugada em que completou noventa anos, o pescador, casado pela sétima vez, acorda a jovem esposa:

— Idalina Odete...

— O que foi, Severino?

— Sonhei com o anjo da morte.

Assustada, a mulher pergunta:

— E o que aconteceu?

— Pensei que havia chegado minha hora. De repente, aquela figura de asas negras soltou uma gargalhada macabra gritando: "Primeiro de abril".

(*) Imagem: Google

sexta-feira, 22 de junho de 2012

O Amigo de Adolfo Valentino



Adolfo Valentino tinha um amigo que vivia mergulhado em problemas. No entanto, apesar de sempre procurá-lo, nenhum de seus conselhos era aceito. No final daquela tarde, exausto do trabalho diário, encontrou o insatisfeito de plantão, que — para variar — reclamava das adversidades insolúveis em sua vida. 

— Não aguento mais tantos dissabores. Preciso conhecer a paz. 

Diante daquela conversa sem saída, afinal nada do que dissesse faria sentido nem diferença, Adolfo Valentino — um homem prático por natureza —, após a vigésima repetição das palavras "conhecer a paz", concluiu:

— Atormentado desse jeito, nem na capital da Bolívia você irá conhecer "la paz". 

sábado, 16 de junho de 2012

A Liberdade é Rosa



Os vizinhos a viram pela última vez naquela tarde chuvosa: pés descalços, um vestido qualquer, nenhuma bagagem, além do buquê destroçado pelo ciúme doentio do marido. Saiu à rua. E dançava...

(*) Imagem: Google

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Bodas de Silêncio



O tempo passava com a velocidade da areia, em queda, numa ampulheta que vertia o ranço dos descuidos. Uma espécie de gatilho pronto a disparar o fim da relação. O estampido nunca foi notado. Distanciaram-se tanto que não se ouviam mais.

(*) Imagem: Google

terça-feira, 29 de maio de 2012

Dor de Cotovelo Suspeita


Embora fosse bem casado, criava apenas músicas tipo dor de cotovelo. Fez tanto sucesso com as letras tristes que até a mulher desconfiou da felicidade conjugal.

(*) Imagem: Google

Ligados Pelo Silêncio



Não se falaram mais após o divórcio. Ela permaneceu leitora de seus livros como quem espia o buraco da fechadura à espera de uma pista, enquanto ele ainda escrevia para aqueles olhos.


(*) Imagem: Google