Clara era a garota que ninguém se recordaria numa reunião de ex-alunos. Naquela manhã os jornais noticiaram o terror espalhado no encontro de confraternização de sua antiga turma de colégio. Os sobreviventes tiveram dificuldade em reconhecer a colega – calada e retraída –, como a autora do massacre.
Cochilou na sala de espera do analista. No instante seguinte, ela e o marido estavam a bordo de um cruzeiro pelas ilhas gregas. No meio daquele cenário deslumbrante, sentiu uma vontade incontrolável de conversar. Nem em sonho romântico ela sossegava. E desatou a falar de seus dilemas. Quantas fragilidades. O marido, ao abraçá-la, sussurrou: – Por que não conta tudo isso pro seu analista? Nesse momento ouviu o som de uma porta se abrindo. Era o próprio. O analista sempre sorria ao indicar que ela entrasse para a sessão. Depois de algum tempo sem dizer uma só palavra, repetiu toda ladainha do tal sonho. O terapeuta, em silêncio até aquele instante, encerrou a sessão com uma pergunta no ar: – Por que não conta tudo isso pro seu marido?