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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Homem a Beira de um Ataque de Nervos





— Tive pesadelos outra vez. O que isto significa Dra. Sigmunda Fuad?
— Não tenho a menor ideia. Elabore, meu caro, elabore... 
— Sonhei que estava num lugar chamado "Tripa de Elite". Não é ato falho. Eu disse "tripa" mesmo.
—  Sua paixão pela gastronomia e cinema nacional é mesmo assombrosa. Consegue descrever o lugar? 
— É um restaurante gótico onde os garçons pintam as unhas com esmalte preto e oferecem um cardápio macabro. Todas as carnes servidas estão banhadas em sangue.
— Hum... Elementar meu caro Washington. Seu sonho está relacionado ao medo da morte.
— Medo? Como se eu fosse normal. Meu pesadelo parece um filme de terror. 
— Acalme-se. Até agora está mais pra filme B. O que acontece depois?
— Mando chamar o cozinheiro que diz ser vegetariano. Por isso batizou de "morte vermelha" a carne que sangra no prato.
— Além de vegetariano, este chef tem humor negro. Coerente para um "restaurante gótico".
— Não consigo mais comer carne, Dra. Sigmunda. Traumatizei. Veja. Estou tremendo. O que eu faço?
— Análise, meu caro. Muita análise. 

(*) Imagem: Google

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O Impaciente Inglês



Um trovão rompe o silêncio e desperta lembranças:
― Sonhei outra vez com sombras. O que isso quer dizer, doutora Sigmunda?
― Elabore o sonho, meu caro. Não sou vidente, apenas psicanalista.
― Desde menino tenho esse pesadelo. Estou num quarto escuro, um temporal desgraçado lá fora e a porta bate. Quando um relâmpago ilumina o céu, vejo sombras na janela. E grito. Grito muito.
― Lembra o que diz nestes gritos?
― "Ah"! E depois, "Oh"!
― O que sente ao ver as sombras?
― Pânico. Acho que é trauma de...  Ouviu isso? Escutei passos na sala de espera, mas sou o último paciente de hoje. Estamos só os dois aqui.
― Acalme-se. Voltemos às sombras. Lembra de algo ao pensar nelas?
― Oh my Freud! Digo, doutora Sigmunda Fuad. Ouvi outro barulho. Estou alucinando? Enlouqueci de vez? Qual o sentido?
― Elementar, meu caro Washington. Você está num ponto crítico da análise. As defesas frágeis. Por isso, projeta sombras no mundo exterior. Fantasias que não existem a não ser em seu imaginário...
O som de outro trovão assusta o paciente. As luzes do consultório se apagam. A porta é arrombada. Surge o vulto de um homem encapuzado, e sua voz vibra sombria:
― É um assalto.
Aos berros, Washington pula do divã, e pendura-se no pescoço do ladrão:
― Obrigado. Você me salvou. Não estou louco...


(*) Imagem: Google

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Vida Inglória de um Espião Depressivo



O salão abarrotado lembrava uma feira livre. Ao invés de barracas de verduras, escritores gritavam os títulos de seus livros. Um autor equilibrava-se em pernas gigantescas de madeira, enquanto urrava ao microfone: "Pague um, e leve dez".

A todo momento, uma sirene anunciava os preços em queda livre. Algumas pessoas corriam. Para não perder a barganha literária, uma delas quase levou meu ombro. No meio daquele cenário caótico, tive a sensação de ouvir alguém sussurrar. Observei ao redor. Lá estava ele. Em torno dos oitenta anos, pálido e magricelo, o escritor apontava a capa de seu livro. E completamente rouco repetia:

— Leia, leia, leia: "Vida inglória de um espião depressivo". O melhor romance policial do século. 

Sorri ao tentar imaginar a história atrás daquele estranho título. E, então, o ruído estridente do meu despertador, por um instante, lembrava o som daquela estranha sirene.

(*) Imagem: Google

Oficina da Palavra




― Hei! Dá pra atender ou tá difícil?
— Diga lá, moça.
― Vim pegar minha palavra colo. Estava com um defeitinho. Lembra?
— Hum... Colo, colo. Tantas pessoas pediram colo esta semana. 
― Imagino. 
— Conhece nossa nova promoção? Quem blindar a palavra esperança, ganha um novo amortecedor pra palavra macia ou pode mudar as pastilhas da palavra ácida.
― Só vou encomendar outro serviço quando vocês resolverem o probleminha no encosto da minha palavra colo.
— Ih, moça! Seu pedido ainda não ficou pronto.
― Não acredito que vou ter de esperar mais.
— Ah, mas neste caso, a moça ganha polimento na palavra paciência.
― Paciência? Há anos não uso essa palavra.
— Vai ver que é por isso que precisa tanto da palavra colo.


(*) Imagem: Google

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O Sonho Não Acabou


Parada na porta do seu quarto, ali estava ela. Angelina Jolie. Por um momento, Ernesto Olívio sorriu como se estivesse consciente de que era apenas um sonho. No entanto aquela mulher deslumbrante continuava ao alcance de suas mãos, perfeita, numa pose sensual. Impossível resistir. 

Antes, porém, só por garantia — afinal, além de neurótico, nunca  deixou de ser precavido —, correu para o banheiro. Queria se certificar de que era ele mesmo do outro lado do espelho, e não o Brad Pitt. Neste exato instante, ouviu o som do despertador. Num ato reflexo de ódio jogou o relógio, que, por um triz, não acerta a cabeça de sua esposa. De volta ao banheiro, ao lavar o rosto, o terrível susto: Brad Pitt ria da sua cara, no espelho.

(*) Imagem: Google

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Breve História de Pescador



No meio da madrugada em que completou noventa anos, o pescador, casado pela sétima vez, acorda a jovem esposa:

— Idalina Odete...

— O que foi, Severino?

— Sonhei com o anjo da morte.

Assustada, a mulher pergunta:

— E o que aconteceu?

— Pensei que havia chegado minha hora. De repente, aquela figura de asas negras soltou uma gargalhada macabra gritando: "Primeiro de abril".

(*) Imagem: Google