segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Bolo Espera Marido





Ao folhear os antigos cadernos de sua avó, encontrou a receita do bolo "Espera Marido".  Uma nota de rodapé, na página amarelada, trazia a marca do senso de humor da melhor confeiteira da família.  A observação a lápis recomendava: "se ele demorar muito a chegar, sirva embolorado".




(*) IMAGEM: Google

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A Mulher Honesta




  ― O que esperava de seu marido? 
 ― Ora, algo verdadeiro. Real, sabe? Mas não... Ele me cobre de mimos. Tudo que desejo, e até o que nunca imaginei que desejaria, está ao meu alcance como num passe de mágica. Eu sei bem o que ele quer: me enganar com essa tal felicidade. Nunca acreditei em pessoas felizes. Prefiro aquelas que quebram a cara. Pelo menos, parecem de verdade. Minhas melhores amigas, por exemplo, tiveram muitas experiências amorosas. Estão no terceiro casamento.  Uma já está no quinto. E eu? Casada com o primeiro namorado. Imagine minha situação quando me perguntam quantos ex-maridos eu tenho. Quer mesmo saber toda verdade? Se eu fosse uma mulher desonesta, teria pelo menos um amante. Um? Não.  Nem em hipótese eu ouso. Que tristeza!  Digamos três ou quatro ao longo deste casamento. Mas eu sou honesta. Entendeu? Eu sou honesta. Por isso procurei você... 
    Laura parou de falar. Precisava de fôlego. Do outro lado da mesa, o advogado fazia anotações em folhas timbradas, e num tom de voz brando que soava cúmplice, disse:
     ― Continue.
     Ela endireitou-se na poltrona, antes de concluir:
   ― Você precisa me ajudar a ter, pelo menos, um ex-marido.

(*) Imagem: Google

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O Impaciente Inglês



Um trovão rompe o silêncio e desperta lembranças:
― Sonhei outra vez com sombras. O que isso quer dizer, doutora Sigmunda?
― Elabore o sonho, meu caro. Não sou vidente, apenas psicanalista.
― Desde menino tenho esse pesadelo. Estou num quarto escuro, um temporal desgraçado lá fora e a porta bate. Quando um relâmpago ilumina o céu, vejo sombras na janela. E grito. Grito muito.
― Lembra o que diz nestes gritos?
― "Ah"! E depois, "Oh"!
― O que sente ao ver as sombras?
― Pânico. Acho que é trauma de...  Ouviu isso? Escutei passos na sala de espera, mas sou o último paciente de hoje. Estamos só os dois aqui.
― Acalme-se. Voltemos às sombras. Lembra de algo ao pensar nelas?
― Oh my Freud! Digo, doutora Sigmunda Fuad. Ouvi outro barulho. Estou alucinando? Enlouqueci de vez? Qual o sentido?
― Elementar, meu caro Washington. Você está num ponto crítico da análise. As defesas frágeis. Por isso, projeta sombras no mundo exterior. Fantasias que não existem a não ser em seu imaginário...
O som de outro trovão assusta o paciente. As luzes do consultório se apagam. A porta é arrombada. Surge o vulto de um homem encapuzado, e sua voz vibra sombria:
― É um assalto.
Aos berros, Washington pula do divã, e pendura-se no pescoço do ladrão:
― Obrigado. Você me salvou. Não estou louco...


(*) Imagem: Google

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

As Mulheres de José Agildo




José Agildo casou-se duas vezes. Ao lado da primeira mulher viveu quinze anos debaixo de vários tetos porque Teodora Alice sofria de compulsão habitacional: não parava mais do que um ano na mesma residência. Um dia, cansado de tantos caprichos, rompeu o casamento. Dois anos mais tarde,  encontrou Valentina Jamile, aquela que seria apelidada por alguns de "esposa virtual" e por outros, "mulher fantasma". A segunda esposa, executiva de uma grande empresa, passava a maior parte do tempo viajando a trabalho. Naquela tarde, em conversa com o melhor amigo, admitiu que a ausência de Valentina Jamile já não o incomodava tanto. Diante da sugestão de partir para o terceiro casamento, José Agildo não titubeou:
— Enlouqueceu Antenor Francisco? Não nasci pra colecionador de sogras.

(*) Imagem: Google

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A Dor da Verdade



Ao reencontrá-lo numa festa, ao lado de outra, não era mais a separação que doía, mas a consciência de que ele nunca a amara.



(*) IMAGEM: Google

sábado, 18 de agosto de 2012

Os Idiotas




Ele avisou que chegaria em dez minutos. Ajeitei a maquiagem borrada nos olhos. Uma gota de perfume, e estava pronta para desempenhar o papel da amante insaciável. Apenas por precaução, retirei a chave do armário onde estava a valise cheia de dinheiro. A esposa dele era mesmo uma otária. Acreditou naquela história de gravidez (eu avisei ao Rick que era melhor não vacilar sem camisinha, mas nosso amor nunca teve regras). Para evitar o escândalo, a mulher pagou o que eu pedi. Candidata nas próximas eleições, engoliu bem quietinha a chantagem. Teria muito a perder, se abrisse a boca para falar do marido traidor, enquanto eu abria a minha para aquele idiota pela última vez. Nossas cenas  —  nas mãos do candidato concorrente   —   renderiam outra valise repleta de dólares. Acionei a microcâmera camuflada em cima do criado mudo. E fui atender a porta.


ESTE CONTO É RESULTADO DE UM EXERCÍCIO 
PROPOSTO EM OFICINA LITERÁRIA

(*) IMAGEM: Google

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Discreto Charme da Loucura




Nada abalava sua discrição. Nem mesmo os surtos. Há dois anos ele acreditava ser um rei deposto que vivia no exílio. E sem nenhuma glória.


(*) Imagem: Google

domingo, 5 de agosto de 2012

Noites de Julieta




Sua mais legítima felicidade não era segredo. Amava o cinema. Amava o marido. Não necessariamente nesta ordem. Muito menos em ordem.



(*) Microconto inspirado na imagem: 

Federico Fellini e sua esposa, a atriz, Giulietta Masina 

sábado, 4 de agosto de 2012

Filosofia de Quinta




― Mestre, qual a melhor maneira de sair de uma situação?
― Esquecer a entrada.

(*) Imagem: Google

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O Amor Sustentável




Era tão devota daquele homem que, ao tropeçar na sua presença, ao invés de perder o chão e cair, levitava.

(*) Imagem: Google