segunda-feira, 27 de agosto de 2012

As Mulheres de José Agildo




José Agildo casou-se duas vezes. Ao lado da primeira mulher viveu quinze anos debaixo de vários tetos porque Teodora Alice sofria de compulsão habitacional: não parava mais do que um ano na mesma residência. Um dia, cansado de tantos caprichos, rompeu o casamento. Dois anos mais tarde,  encontrou Valentina Jamile, aquela que seria apelidada por alguns de "esposa virtual" e por outros, "mulher fantasma". A segunda esposa, executiva de uma grande empresa, passava a maior parte do tempo viajando a trabalho. Naquela tarde, em conversa com o melhor amigo, admitiu que a ausência de Valentina Jamile já não o incomodava tanto. Diante da sugestão de partir para o terceiro casamento, José Agildo não titubeou:
— Enlouqueceu Antenor Francisco? Não nasci pra colecionador de sogras.

(*) Imagem: Google

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A Dor da Verdade



Ao reencontrá-lo numa festa, ao lado de outra, não era mais a separação que doía, mas a consciência de que ele nunca a amara.



(*) IMAGEM: Google

sábado, 18 de agosto de 2012

Os Idiotas




Ele avisou que chegaria em dez minutos. Ajeitei a maquiagem borrada nos olhos. Uma gota de perfume, e estava pronta para desempenhar o papel da amante insaciável. Apenas por precaução, retirei a chave do armário onde estava a valise cheia de dinheiro. A esposa dele era mesmo uma otária. Acreditou naquela história de gravidez (eu avisei ao Rick que era melhor não vacilar sem camisinha, mas nosso amor nunca teve regras). Para evitar o escândalo, a mulher pagou o que eu pedi. Candidata nas próximas eleições, engoliu bem quietinha a chantagem. Teria muito a perder, se abrisse a boca para falar do marido traidor, enquanto eu abria a minha para aquele idiota pela última vez. Nossas cenas  —  nas mãos do candidato concorrente   —   renderiam outra valise repleta de dólares. Acionei a microcâmera camuflada em cima do criado mudo. E fui atender a porta.


ESTE CONTO É RESULTADO DE UM EXERCÍCIO 
PROPOSTO EM OFICINA LITERÁRIA

(*) IMAGEM: Google

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Discreto Charme da Loucura




Nada abalava sua discrição. Nem mesmo os surtos. Há dois anos ele acreditava ser um rei deposto que vivia no exílio. E sem nenhuma glória.


(*) Imagem: Google

domingo, 5 de agosto de 2012

Noites de Julieta




Sua mais legítima felicidade não era segredo. Amava o cinema. Amava o marido. Não necessariamente nesta ordem. Muito menos em ordem.



(*) Microconto inspirado na imagem: 

Federico Fellini e sua esposa, a atriz, Giulietta Masina 

sábado, 4 de agosto de 2012

Filosofia de Quinta




― Mestre, qual a melhor maneira de sair de uma situação?
― Esquecer a entrada.

(*) Imagem: Google

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O Amor Sustentável




Era tão devota daquele homem que, ao tropeçar na sua presença, ao invés de perder o chão e cair, levitava.

(*) Imagem: Google

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Onde Foi Parar o Final Feliz?




― Cara, nas tuas histórias tudo sempre acaba mal. Por que não escreve uma diferente?

― Você tem razão. Vou mudar isso. Na próxima tudo vai começar mal.


(*) Imagem: Google

O Outro Lado Da Noite




Se pudesse escolher, provavelmente não veria a menor graça naquela mulher. Mas Letícia era intensa como uma festa: uma alegoria das suas melhores lembranças. Com ela recordava o menino que deixara escapar da alma. 

No momento em que o telefone tocou, às duas horas da madrugada, não conseguiu conter o sorriso. Do outro lado da linha, a voz dela:

— Quero conversar.

— Tenho alguma opção além desta?

Ela riu antes de admitir: 

— Você sabe a resposta.

— Só não digo até quando. 

— Eu sempre estou por um triz contigo. E sem rede de segurança. 

— Isto é um pedido?

— Nunca peço nada.

Era verdade. Letícia não pedia. Exigente e fora de controle como uma criança insuportável que acredita ser o umbigo do mundo. E nada poderia atraí-lo mais. Por isso a mantinha a uma distância segura: um milímetro da beira do abismo.

— Faça isso agora. Peça uma coisa cara.

— Diamantes. 

— Desconheço o termo.

— Deve ser porque sou a única coisa brilhante em sua vida.

— Minha luz.

— Acende o abajur. 

E os dois sorriram, ao mesmo tempo, como quem coloca entre parênteses tantas noites solitárias.


(*) Imagem: Google

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Eduarda e Mônaco



Eduarda ouvia Roberto Carlos o dia inteiro, enquanto Mônaco, angustiado por natureza, lia Sartre o tempo todo. O mundo de Eduarda era outro: sem espaço para crises existenciais. Sempre que Mônaco repetia "o inferno são os outros", ela declarava que o segredo do sucesso era mandar tudo para o inferno. Naquela tarde, antes de ingerir o décimo sal de frutas do dia, ao observar a coleção de pinguins de porcelana, em cima da geladeira vermelha, Mônaco reclamou baixinho:

― Só os cafonas são felizes...


(*) Imagem: Google