quinta-feira, 5 de julho de 2012

O Casamento de Romeu e Julieta




― Chega de me enrolar, Romeu. Quanto tempo mais terei que esperar pelo nosso casamento?
― Apenas duas décadas, Julieta.
― Vinte anos? Enlouqueceu?
― O que são vinte anos pra quem terá toda a eternidade juntos?


(*) Imagem: Google

Vida Inglória de um Espião Depressivo



O salão abarrotado lembrava uma feira livre. Ao invés de barracas de verduras, escritores gritavam os títulos de seus livros. Um autor equilibrava-se em pernas gigantescas de madeira, enquanto urrava ao microfone: "Pague um, e leve dez".

A todo momento, uma sirene anunciava os preços em queda livre. Algumas pessoas corriam. Para não perder a barganha literária, uma delas quase levou meu ombro. No meio daquele cenário caótico, tive a sensação de ouvir alguém sussurrar. Observei ao redor. Lá estava ele. Em torno dos oitenta anos, pálido e magricelo, o escritor apontava a capa de seu livro. E completamente rouco repetia:

— Leia, leia, leia: "Vida inglória de um espião depressivo". O melhor romance policial do século. 

Sorri ao tentar imaginar a história atrás daquele estranho título. E, então, o ruído estridente do meu despertador, por um instante, lembrava o som daquela estranha sirene.

(*) Imagem: Google

Oficina da Palavra




― Hei! Dá pra atender ou tá difícil?
— Diga lá, moça.
― Vim pegar minha palavra colo. Estava com um defeitinho. Lembra?
— Hum... Colo, colo. Tantas pessoas pediram colo esta semana. 
― Imagino. 
— Conhece nossa nova promoção? Quem blindar a palavra esperança, ganha um novo amortecedor pra palavra macia ou pode mudar as pastilhas da palavra ácida.
― Só vou encomendar outro serviço quando vocês resolverem o probleminha no encosto da minha palavra colo.
— Ih, moça! Seu pedido ainda não ficou pronto.
― Não acredito que vou ter de esperar mais.
— Ah, mas neste caso, a moça ganha polimento na palavra paciência.
― Paciência? Há anos não uso essa palavra.
— Vai ver que é por isso que precisa tanto da palavra colo.


(*) Imagem: Google

terça-feira, 3 de julho de 2012

Segredos de uma Menina


Aos cinco anos foi morar do outro lado do mundo. Um ursinho de pelúcia era seu único confidente.

(*) Imagem: Google

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Na Cama Com Um Milionário



No dia de seu nonagésimo oitavo aniversário, ao acordar da habitual soneca depois do almoço, o ancião milionário se deparou com os familiares em volta do leito, praticamente sentados sobre a cama. Pediu, então, que um dos parentes falidos se aproximasse ainda mais. E sussurrou em seu ouvido:


— A vida é uma criança. 

(*) Imagem: Google

domingo, 1 de julho de 2012

Jornal Emocional - Final




NOTA: Essa é a segunda e última parte do conto "Jornal Emocional". A primeira parte está na publicação anterior.



Ele escreve o primeiro nome no lugar da assinatura, e lê mais uma vez...

Discutir relação não é o meu forte. Você bem sabe: foram precisos quatro meses para digerir sua carta aberta com nosso amor no jornal. Tenho direito (ou seria dever?) à resposta, mas a verdade é que apesar de não ser certo presidente, não sei nada quando o assunto somos nós. Haja nós! Confesso minhas defesas mornas e bizarras. Fiz do caminho uma planilha onde aparecem as tais prioridades pra tocar a vida, minha cara, meu amor, minha amiga. É o que procuro fazer entre a ginástica e os mil compromissos de quem trabalha em televisão. Você casou sabendo que não haveria fim de semana garantido. Nem dia santo.

Entretanto está coberta de razão: casamento complicado... E estamos, neste barco, conscientes de que amor não é passaporte. Remamos para lados opostos e não vamos mais a lugar algum. A paisagem não muda, nem nossos problemas tão antigos, sempre iguais. Essa mesmice poderia ser reconfortante como uma agenda segura que, enfim, indica a hora de voltar pra casa. Olho o relógio. Há anos não chego cedo. Tanto tempo que não temos tempo. E-mails não compensam minha ausência, mas mesmo assim, escrevo pra desejar bom dia, mando um beijo e envio a mensagem. E ainda que soe piegas, não estou pronto pra dizer adeus, enquanto você não parece disposta a esperar. 

E agora? O que faço deste bilhete rabiscado com palavras perdidas? Poderia jurar ter escutado tua voz rouca: 

― Envie para o jornal.

(*) Imagem: Google

Jornal Emocional – Parte 1






Abriu o jornal e leu – apenas para conferir – se publicaram sem cortes...

Não estamos bem. Você sabe. Eu sei. Entretanto, a vida precisa seguir. Não adianta mais fazer de conta que tudo pode ser jogado pra debaixo do tapete. Tantos anos fariam nosso lindo persa – comprado à prestação – colar-se ao teto. Resolvi escrever (nem é muito, mesmo após uma década contigo) e publicar no jornal que assinamos. Por que o jornal? Nossas agendas estão lotadas e não há mais tempo entre um compromisso e outro. Até nos finais de semana. Então, já que estamos tão ocupados, talvez você leia por aqui mesmo, pela manhã, numa pausa entre a bicicleta e a musculação. 

Você e eu somos um caso sério, mas temo não sermos crônicos. E então o amor – que não é passaporte nem garantia – se desgasta quando não respira pelos caminhos da atenção e também da liberdade. E este é apenas um dos nós em nós. Somos independentes demais e, ao mesmo tempo, carentes. Queremos tudo. Não conseguimos mais nos contentar com o que é possível. Nossas fantasias e expectativas nos levaram para o Olimpo e nesse lugar, mortais não têm vez. Nem voz! Você não é meu Zeus. E eu não sou sua Juno. Nem estamos na idade da inconsciência e paixões imaturas. Então, Eros e Psique? Isto também não rola. Talvez, por isso, tenhamos ainda alguma chance. Somos humanos. E aprendemos alguma coisa. Pouco. Eu sei. Você sabe. Depende apenas de nós. Desatemos os nós? Ou nós?


(*) Imagem: Google



sábado, 30 de junho de 2012

O Rei das Mulheres



Henrique Otávio tinha duas mulheres e seis amantes. Um dia decidiu que iria sustentar todas elas. Perdeu a cabeça.


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A Sombra do Silêncio



Um deserto ocupou lentamente o espaço do que teriam a dizer um ao outro. Tudo era morno, sem gosto e igual. 


(*) Imagem: Google

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O Último Desejo



Deixarei para Astolfo Henrique meu uniforme de escoteiro. Para a querida Hemengarda Gladys, o broche de veludo violeta, lembrança das Bodas de Ametista de meus avós paternos. Epaminondas ficará com meu animal de estimação, o crocodilo Xantipe. A adorável quituteira da família, Josephine Joanette, receberá a panela de barro onde foi preparada minha primeira papinha. E à caçulinha Genoveva Jamille, deixarei a maçaneta de porcelana do quarto de mamãe. Todos os outros bens, joias, objetos de arte e valores monetários serão destinados ao governo para patrocinar a Guerra do Paraguai.

(*) Imagem: Google